Sem novos testes técnicos, medida do governo viola a legislação e gera forte resistência da indústria por riscos mecânicos e prejuízo econômico
As entidades ligadas à produção de automóveis e motocicletas decidiram bater de frente contra um absurdo: a pretensão já confirmada do governo de elevar a mistura de etanol na gasolina de 30% para 32% “na marra”, sem realização de ensaios prévios (“provisoriamente, por 180 dias”).
O presidente Lula chegou a afirmar que os testes já foram realizados. Mentira. O que ocorreu foram ensaios (no ano passado) com o teor de 32% apenas como margem de tolerância quando o etanol subiu de 27% para 30%. É básico: se o objetivo agora é fixar o padrão em 32%, os novos testes de validação precisam, obrigatoriamente, serem feitos com 34% de etanol para garantir a mesma segurança técnica.
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Desta vez, a resistência é ampla. A Anfavea (associação das montadoras), o setor de autopeças (Sindipeças) e a Abeifa (associação dos importadores) já se manifestaram formalmente – em documento assinado conjuntamente – contra o novo aumento. Só chama a atenção o silêncio da CNT (Confederação Nacional dos Transportes), que deveria estar defendendo o consumidor, quem paga a conta na bomba. Pois outra mentira do governo é “explicar” que o aumento do consumo de combustível provocado pelo novo teor de etanol seria compensado pela redução do preço da gasolina na bomba. Nunca foi.
No entanto, a manifestação mais contundente e objetiva veio da Abraciclo, entidade que representa os fabricantes de motocicletas, que contesta a ideia de empurrar esse novo teor “goela abaixo”.
A Abraciclo é clara: o aumento de 27% para 30% de etanol na gasolina já trouxe falhas graves. No caso das motos, os problemas são muito mais acentuados do que nos automóveis. Entre os principais defeitos relatados estão:
Além do risco físico, há também o econômico. Como fica o comércio internacional? O acordo Mercosul/União Européia incentivou a exportação de produtos brasileiros para a Europa e vice-versa. Mas lá o etanol varia entre 5% e 10%. Se nossas motos não forem compatíveis com o padrão global, a indústria nacional terá que investir fortunas para desenvolver modelos “especiais” apenas para atender a gasolina europeia. Isso eleva custos, reduz escala, encarece o produto final e inviabiliza as exportações – prejudicando a competitividade.
Além do risco físico, há o risco econômico. Como fica o comércio internacional? O Brasil exporta para a Europa e vice-versa, mas lá o etanol varia entre 5% e 10%. Se nossas motos não forem compatíveis com o padrão global, a indústria nacional terá que investir fortunas para desenvolver modelos “especiais” apenas para atender a gasolina europeia. Isso eleva custos, encarece o produto final e inviabiliza as exportações – prejudicando a competitividade.
Há também uma questão de responsabilidade jurídica. Se uma moto apresenta defeito causado pelo excesso de álcool, para o qual ela não foi projetada, a fábrica acaba sendo responsabilizada injustamente por um problema provocado pelo combustível.
A Abraciclo reforça que nunca foi contra o biocombustível. Pelo contrário, existe um apoio rigoroso ao etanol. Mas se indignou quando, no aumento do teor de 27% para 30%, ela participou da comissão que analisou a proposta, manifestou-se contra mas não foi ouvida. A aprovação de novos teores (biodiesel no diesel, etanol na gasolina) é de responsabilidade do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) do Ministério de Minas e Energia. Que não trata do assunto (como deveria) técnica, mas politicamente.
Aumentar o teor sem ensaios rigorosos não é apenas uma imprudência técnica, é uma ilegalidade. A Lei do Combustível do Futuro é cristalina: o aumento do teor de etanol na gasolina (ou do biodiesel no diesel) só pode ocorrer mediante ensaios que comprovem a viabilidade técnica. A Abraciclo não concorda que os ensaios sejam apenas de dirigibilidade, mas também os de longo prazo, para se verificar a compatibilidade dos componentes com o novo percentual do álcool.
O que muitos sugerem são medidas mais inteligentes de, ao invés de se aumentar o teor de etanol anidro na gasolina, o governo federal poderia incentivar – por meio de algum tipo de subsídio, além de campanhas: