Vias ruins, falta de educação no trânsito e riscos à saúde: Brasil está pronto para os patinetes elétricos?

Abramet dá sua posição em relação à febre dos equipamentos de micromobilidade que viraram moda nos últimos tempos

Modelos não necessitam de emplacamento ou CNH (Foto: Shutterstock)
Por Lucas Silvério
Publicado em 26/05/2026 às 06h00

A febre dos patinetes elétricos, autopropelidos, scooters e similares já modificou a legislação nacional, com a criação da Resolução nº 996 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), e até rendeu polêmicas em cidades saturadas desses dispositivos, como é o caso do Rio de Janeiro (RJ). Mesmo assim, os veículos voltados à micromobilidade continuam em alta. Porém, de acordo com a Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), é preciso alertar para os riscos desses equipamentos, importantes para o deslocamento urbano, mas introduzidos de forma muito repentina e sem preparo adequado para o cidadão.

VEJA TAMBÉM:

Em entrevista ao AutoPapo, a Abramet trouxe o ponto de vista da segurança e da saúde a respeito dos patinetes elétricos e similares. Para os médicos especialistas, os veículos são importantes, mas a saúde dos cidadãos deve ser tratada com maior cuidado.

Os veículos de micromobilidade, como patinetes elétricos, pequenas scooters, motociclos leves e outros equipamentos autopropelidos, representam uma mudança importante na mobilidade urbana. Eles oferecem praticidade, baixo custo, menor ocupação do espaço urbano e podem contribuir para reduzir congestionamentos e emissões”, aponta a associação. “Entretanto, qualquer inovação em mobilidade deve ser acompanhada de uma análise rigorosa de seus impactos sobre a saúde e a segurança viária. A questão não é apenas se esses modais são úteis, mas se o sistema viário atual está preparado para recebê-los de forma segura. Em muitos locais, a expansão ocorreu mais rapidamente que a adaptação da infraestrutura, da legislação, da fiscalização e da educação para o trânsito. Isso cria um cenário de vulnerabilidade.”

Patinetes elétricos compartilhados JET lançamento em BH
Em Belo Horizonte (MG), 1500 patinetes elétricos foram disponibilizados para aluguel pela empresa JET (Foto: JET | Divulgação)

De acordo com estudo da Confederação Nacional dos Transportes (CNT), 62% das estradas brasileiras estão em condições ruins ou péssimas de rodagem. Esses equipamentos de mobilidade são ainda mais frágeis, sensíveis e sujeitos a avarias do que automóveis ou outros meios de transporte maiores.

Além disso, também em 2025, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) constatou que apenas 1,9% da população vive em trechos de ruas sinalizados para bicicletas, enquanto 54,1% dos municípios do país não contam com nenhuma sinalização para ciclovias, ciclorrotas e ciclofaixas. Esses tipos de vias são os mais indicados para a circulação dos veículos em questão.

A Abramet destacou que, do ponto de vista da segurança, esses patinetes elétricos e similares apresentam características particulares: rodas pequenas, menor estabilidade, baixa proteção estrutural e grande sensibilidade a irregularidades do piso. Buracos, desníveis, trilhos, pisos molhados e obstáculos que passariam despercebidos para um automóvel podem provocar quedas graves. Além disso, muitos usuários têm pouca experiência prévia e frequentemente não utilizam equipamentos de proteção.

“Por serem compactos, silenciosos, frequentemente utilizados em trajetos curtos e muitas vezes vinculados à ideia de lazer ou praticidade, há tendência de subestimar os riscos envolvidos. Muitos usuários não os percebem como veículos potencialmente capazes de gerar traumas importantes, o que favorece comportamentos de risco, como ausência de equipamentos de proteção, excesso de confiança, uso simultâneo de celulares e condução em ambientes inadequados”, reforçou a associação.

Nessa situação, o cidadão estaria exposto a riscos majoritariamente ligados a lesões corporais. Nos casos mais graves, podem ocorrer traumatismos cranioencefálicos, lesões faciais, fraturas de membros superiores e inferiores e traumas ortopédicos complexos.

Scooter elétrico
Scooters elétricos, a depender de sua capacidade e tamanho, também se enquadram na categoria que dispensa CNH (Foto: Shutterstock)

“Diferentemente dos automóveis, esses veículos oferecem pouca ou nenhuma estrutura de proteção passiva, como carroceria reforçada, zonas de deformação, airbags, cintos de segurança ou outros mecanismos capazes de absorver parte da energia do impacto. Dessa forma, em situações de queda ou colisão, uma parcela significativamente maior da energia gerada é transferida diretamente ao corpo do usuário”, afirmou a associação.

Entre os maiores riscos ao conduzir esses veículos destacam-se: quedas por perda súbita de estabilidade; colisões com automóveis, motocicletas, ciclistas e pedestres; uso sem capacete e equipamentos de proteção; distração por celulares; inexperiência do condutor; circulação em vias não adaptadas; e velocidade incompatível com o ambiente urbano.

A Abramet frisa que essas características aumentam significativamente a exposição a lesões graves, incluindo traumatismos cranioencefálicos, lesões faciais, fraturas de membros superiores e inferiores e traumas ortopédicos complexos. Nos casos de maior gravidade, podem ocorrer ainda lesões potencialmente fatais, como traumatismos torácicos, cervicais e abdominais.

Estudos apontam maior gravidade em determinados casos

Estudos, predominantemente internacionais, têm demonstrado crescimento expressivo dos atendimentos de emergência relacionados aos veículos de micromobilidade, especialmente aos patinetes elétricos. Revisões sistemáticas apontam que as quedas representam o principal mecanismo de trauma, associadas a índices muito baixos de utilização de capacete entre os usuários acidentados.

Ainda segundo a Abramet, uma revisão envolvendo 34 estudos identificou elevada frequência de fraturas de membros superiores, observando que a maioria dos eventos teve origem em quedas. Outra revisão demonstrou maior incidência de lesões em cabeça, pescoço e extremidades, além de maior necessidade de procedimentos cirúrgicos em determinados grupos de usuários. Há também evidências de associação entre a baixa adesão ao uso de capacete e maior ocorrência de traumatismos cranioencefálicos.

A redução do limite de velocidade poderia ser uma alternativa de segurança

Dados de um estudo observacional realizado em um hospital universitário alemão reforçam que, em velocidades de 20 km/h, a proporção de acidentes com lesões graves em cabeça e pescoço é de 43,8%, enquanto, entre ciclistas, os índices são de 22,4%.

“Ao atingir obstáculos como guias, irregularidades da via ou meio-fio, o patinete pode atuar como uma espécie de alavanca, projetando abruptamente o condutor para frente e gerando forças elevadas sobre membros superiores e, principalmente, face e cabeça, aumentando substancialmente o risco de lesões graves”, explica a Abramet.

A associação aponta que estimativas sugerem que a redução da velocidade de um patinete elétrico de 25 km/h para 15 km/h pode diminuir em aproximadamente 50% o risco de traumatismo cranioencefálico em pedestres envolvidos em colisões. Esse achado reforça um princípio central da segurança viária: pequenas reduções de velocidade podem resultar em expressiva redução da gravidade das lesões, especialmente entre usuários mais vulneráveis.

Os médicos pontuam

A posição da Abramet é que a micromobilidade pode trazer benefícios importantes, mas deve ser integrada ao sistema viário dentro de uma abordagem de saúde pública e segurança viária. Isso exige infraestrutura adequada, regulamentação clara, educação do usuário, fiscalização e estímulo ao uso de equipamentos de proteção. Inovação sem segurança pode transformar uma solução de mobilidade em um novo problema de saúde pública”, afirma a Associação.

0 Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Comentários com palavrões e ofensas não serão publicados. Se identificar algo que viole os termos de uso, denuncie.
Avatar
Deixe um comentário