Um semáforo, 364 dias piscando e um único dia de verde: a ilha japonesa que ensina as crianças a atravessar a rua

Instalado em 1994, o único semáforo de Himakajima pisca todos os dias e só abre o verde para uma aula de educação viária

Semáforo de Himakajima permanece em funcionamento simplificado durante quase todo o ano utilizando apenas uma das cores (Foto: Reprodução)
Por Júlia Haddad
Publicado em 18/08/2026 às 21h00

Existe um semáforo no Japão que passa 364 dias por ano sem fazer aquilo para o que foi inventado. Ele fica em Himakajima, uma ilha de menos de 1 km² na Baía de Mikawa, província de Aichi, a poucos minutos de barco do continente — e só acende o verde uma vez por ano, para uma plateia de crianças.

Instalado em 1994 no cruzamento junto ao porto leste da ilha, o equipamento vive em modo intermitente: pisca vermelho para quem sai da via do porto e amarelo para quem segue pela estrada costeira. É um “pare e olhe” luminoso, nada além disso. E não precisa ser mais: com cerca de 1.600 moradores, pouquíssimos veículos e um perímetro de 5,5 km que se percorre a pé em menos de 90 minutos, Himakajima não tem trânsito que justifique um ciclo completo de sinalização.

Ali, o polvo tem mais protagonismo que o automóvel — há até um posto policial em forma de polvo no porto.

A aula que acontece uma vez por ano

A exceção chega junto com um grupo de estudantes. Alunos do terceiro e do quinto anos da escola primária local são levados até o cruzamento uma vez por ano, e o semáforo passa a operar como qualquer outro do país. As crianças formam uma fila na calçada, esperam a mudança da luz, olham para os dois lados e só então pisam na faixa, atravessando com os braços erguidos para ficarem mais visíveis.

Parece brincadeira, mas o exercício resolve um problema real. Antes de 1994, a escola usava pequenos equipamentos de demonstração para explicar como funciona um semáforo — o que não ensinava o essencial: quanto tempo dura o sinal, a que distância o carro está, para onde olhar. A associação de segurança no trânsito da ilha percebeu que os moradores chegavam ao continente sem repertório para lidar com cruzamentos e mandou instalar o equipamento de verdade.

O detalhe é que muitos desses alunos vão embora. Quem cresce em Himakajima costuma deixar a ilha para estudar ou trabalhar em cidades como Nagoya, Osaka, Yokohama ou Tóquio — lugares em que atravessar a rua no sinal errado não é um detalhe.

Verde que se chama azul

O treinamento inclui uma peculiaridade que confunde estrangeiros no Japão: a luz que o resto do mundo chama de verde é tradicionalmente descrita como azul (ao). A herança vem do vocabulário japonês antigo, que usava a mesma palavra para as duas cores, e sobreviveu na lei de trânsito. A função, claro, é a mesma.

Casos assim não são exclusividade japonesa. No Brasil, a Ilha Grande, em Angra dos Reis (RJ), proíbe a circulação de veículos particulares em todo o território: os deslocamentos acontecem a pé, de bicicleta ou de barco.

Em Himakajima, o resultado foi curioso: de tanto quase não funcionar, o semáforo virou atração. Aparece no material de divulgação da ilha e é fotografado por turistas que sobem do porto para ver o cruzamento que passa o ano piscando.

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