Sem querer, equipe de Donald Trump pede ao Brasil para favorecer os carros chineses

Ao pedir corte de tarifa sobre veículos, os EUA esbarraram em um problema: quem mais ganharia seriam as montadoras chinesas

EUA pediram tarifa menor para carros e Brasil avisou: quem ganha é a China (Foto: BYD | Divulgação)
Por Júlia Haddad
Publicado em 03/07/2026 às 19h00

Em meio às negociações do tarifaço, um pedido dos Estados Unidos para que o Brasil reduza a tarifa de importação sobre veículos esbarrou em um efeito inconveniente: quem mais lucraria com o corte no imposto não seriam as montadoras americanas, e sim as chinesas. Foi com esse argumento que os negociadores brasileiros resistiram à demanda de Washington, segundo relatos colhidos pela CNN com pessoas que participaram dos encontros, mantidos em sigilo.

A taxa aplicada pelo Brasil sobre veículos que vêm de fora é um dos principais pontos das tratativas entre os dois países. Hoje, a Tarifa Externa Comum do Mercosul fixa alíquota de 35% para a importação de veículos, qualquer que seja a origem. O Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) pediu que esse percentual caísse para os “motor vehicles” fabricados no exterior.

Nas conversas, representantes do governo brasileiro observaram que o termo abrange um universo amplo — carros de passeio, utilitários, elétricos, híbridos e a combustão — e pediram que a delegação americana apontasse a “linha tarifária” específica em que se considera mais competitiva do que a concorrência global. A resposta não veio.

De acordo com a apuração do blog Daniel Rittner, da CNN, um negociador brasileiro chegou a expor o raciocínio diretamente ao chefe do USTR, Jamieson Greer: se o Brasil baixasse as tarifas, o resultado provável não seria o consumidor comprar mais carros americanos, mas sim modelos chineses, que ficariam ainda mais baratos — deixando o presidente Donald Trump “ainda mais nervoso” com o país.

Foi então que surgiu um pedido inusitado: reduzir as alíquotas apenas para os veículos fabricados nos Estados Unidos, deixando de fora todos os demais fornecedores, da China ao México, da Coreia à Alemanha. A resposta brasileira foi direta: “isso não podemos fazer”.

O impedimento é uma regra básica do comércio internacional: a cláusula da nação mais favorecida, princípio fundador da Organização Mundial do Comércio (OMC), que obriga estender a todos os países qualquer concessão feita a um único parceiro.

Os brasileiros ainda ponderaram que, mesmo que o país rasgasse os compromissos com a OMC e concedesse o corte só aos americanos, o Judiciário é independente: um importador de veículos entraria com pedido de liminar para estender a redução a carros chineses ou de outras origens — e dificilmente teria o pleito negado.

Sem consenso, as tratativas emperraram. Um acordo antes de 15 de julho, data fixada pelo USTR para a entrada em vigor do tarifaço, aparece como possibilidade remota.

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