Para conter pneus chineses, Europa recorre a estratégia que fracassou no Brasil
Europa taxa o pneu chinês só agora, mas o Brasil aplica anti-dumping desde 2009 e já subiu a tarifa de importação de 16% para 25%
Publicado em 13/07/2026 às 14h00
A União Europeia passou a taxar os pneus fabricados na China com tarifas anti-dumping de até 45,3%, num movimento que ecoa uma disputa que o Brasil trava há mais de uma década. A medida, anunciada nesta segunda-feira (13), busca conter o que Bruxelas classifica como concorrência desleal — e recoloca em pauta a avalanche de pneus asiáticos que já domina o mercado de reposição brasileiro.
Na Europa, as alíquotas variam de 24,4% a 45,3%, conforme o fabricante, com exceção da sul-coreana Hankook, que produz na China e ficou sujeita a apenas 4,3%. A decisão veio após investigação aberta em 2025 a pedido de fabricantes europeus, que acusavam produtores chineses de vender abaixo do valor de mercado. A participação das marcas chinesas no bloco saltou de 18% para 28% em três anos, segundo a Comissão Europeia. Na ponta, o impacto estimado é de 9 a 16 euros por pneu.
O Brasil, porém, chegou antes a esse embate. O país aplica direito anti-dumping a pneus chineses desde 2009 e, em setembro de 2024, elevou de 16% para 25% a tarifa de importação dos pneus de passeio. Ainda assim, a China responde por 78% dos pneus de passeio importados pelo país, segundo a Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (Anip).
Os números da entidade mostram a escalada: a fatia dos importados no mercado de reposição subiu de 34%, em 2019, para 59% em 2025 — seis a cada dez pneus trocados no Brasil vêm de fora. No mesmo intervalo, a produção nacional despencou de 69% para apenas 31% das vendas no primeiro quadrimestre de 2026, o menor patamar já registrado. Em 2024, a Michelin fechou a fábrica de Guarulhos (SP), citando a pressão dos importados.
Marcas como Linglong, Triangle e Westlake já ocupam cerca de um quarto do mercado de reposição, concentradas no segmento de entrada. “Precisamos de medidas efetivas que sinalizem que esse jogo vai mudar”, afirmou, ao Estadão, Rodrigo Navarro, presidente da Anip, que pede a elevação da tarifa de importação de passeio para 35%.
Do outro lado, os importadores resistem. Segundo a Associação Brasileira dos Importadores e Distribuidores de Pneus (Abidip), um pneu de R$ 500 já subiu para R$ 625 com a tarifa de 25% e chegaria a R$ 675 caso o índice avance. Para a entidade, o resultado seria apenas “redução de oferta e aumento de preços para o consumidor brasileiro”.
