Motoristas estão embrulhando os carros com lona por causa de um roedor atraído por fluidos do veículo

Roedores em parques nacionais dos EUA sentem atração pelo cheiro adocicado do aditivo de radiador e roem mangueiras, preocupando turistas

Proteção inusitada: Motoristas em parques nacionais dos EUA criam proteções de lona para blindar carros contra marmotas (Foto: Reprodução)
Por João Paulo Profeta
Publicado em 02/09/2026 às 12h00
Atualizado em 02/09/2026 às 12h58

O Serviço Nacional de Parques dos Estados Unidos (NPS) recomenda que visitantes de Mineral King, área do Parque Nacional de Sequoia e Kings Canyon, na Califórnia, estacionem sobre uma lona plástica e depois envolvam o próprio carro com ela, cobrindo as caixas de roda. A medida, que rendeu imagens de veículos embrulhados como sanduíches, serve de barreira contra as marmotas-de-barriga-amarela, roedores atraídos pelo cheiro adocicado do líquido de arrefecimento.

Segundo o NPS, da primavera ao meio do verão no Hemisfério Norte as marmotas da região roem mangueiras de radiador e fiação elétrica, e são capazes de imobilizar um veículo. O órgão recomenda o uso reforçado da lona até meados de julho e orienta lavar a carroceria, o assoalho e o compartimento do motor antes da visita. Na volta, o motorista deve inspecionar mangueiras, correias, fiação e o nível do fluido de arrefecimento antes de dar a partida.

Tela de galinheiro não funciona mais

A lona substituiu uma solução mais antiga. Cercar o carro com tela de galinheiro deixou de ser recomendado porque as marmotas aprenderam a contornar o material, informa o NPS, que pede o uso apenas de métodos não tóxicos e avisa não se responsabilizar por danos, nem garantir que as próprias orientações funcionem.

O problema também não é novo. Um relatório técnico do Serviço Geológico dos Estados Unidos já tratava dos danos causados por marmotas a veículos em Mineral King em 1986. Em reportagem publicada em 2001 pela revista Sierra, o ecólogo Harold Werner, então no Parque Nacional de Sequoia, estimava de 20 a 40 carros danificados por verão, atribuídos a cerca de 200 animais, números que nunca foram atualizados oficialmente. O NPS relata ainda casos de marmotas que não deixaram o cofre do motor a tempo e viajaram como caronas involuntárias até o sul da Califórnia.

Fluido doce e letal

A atração pelo aditivo cobra um preço alto do animal. O etilenoglicol, base da maioria dos fluidos de arrefecimento, tem sabor adocicado e provoca insuficiência renal aguda e morte em pequenos mamíferos e humanos. O risco não se limita à fauna dos parques americanos: cães são igualmente sensíveis ao cheiro, o que faz de qualquer vazamento em garagens e oficinas brasileiras um perigo para animais domésticos.

Para o site americano The Drive, que levantou o caso a partir de um vídeo do The Wall Street Journal, há uma hipótese para explicar a concentração de ocorrências na região. Andrew P. Collins, editor executivo da publicação, avalia que a subida longa e íngreme até o parque submete o sistema de arrefecimento a esforço prolongado, o que aumenta a chance de vazamentos e da expulsão de excesso de fluido pelo tubo de transbordo. A tese não é confirmada pelo serviço de parques, que trata a lona como barreira física, e não como forma de conter o odor.

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