China endurece testes de segurança porque está lançando carros rápidos demais

Regulador chinês ainda prepara aumento de 15 mil para 30 mil quilômetros nos testes de durabilidade de elétricos e híbridos plug-in

Marcas chinesas encurtam prazos de desenvolvimento, gerando preocupações sobre a segurança do consumidor (Foto: Li Auto | Divulgação)
Por João Paulo Profeta
Publicado em 02/09/2026 às 17h00

Desenvolver um carro novo leva de três a cinco anos na indústria tradicional. As marcas chinesas encurtaram esse ciclo para cerca de dois anos e agora perseguem uma meta de 18 meses, velocidade que virou sua principal vantagem competitiva e já preocupa Pequim, segundo a Automotive News Europe.

A resposta das autoridades é uma campanha de um ano para reforçar qualidade e segurança, com auditorias nas fabricantes, inspeções sem aviso prévio e escrutínio maior sobre a validação de novas tecnologias. O regulador chinês também se prepara para dobrar de 15 mil para 30 mil quilômetros a distância mínima exigida nos testes de durabilidade dos veículos de nova energia, categoria que reúne elétricos, híbridos plug-in e elétricos com extensor de autonomia. A mudança ainda não está em vigor e igualaria esses modelos aos carros a combustão.

Nos últimos meses, o país apertou as regras em outras frentes. Proibiu as maçanetas retráteis e os meios-volantes, o formato retangular popularizado pela Tesla, banidos dos carros novos a partir de 2027, e criou exigências para sistemas avançados de condução assistida, em vigor no ano que vem. O aperto coincide com o maior recall da história do país: mais de 4,27 milhões de elétricos de nove fabricantes, a maioria da Tesla, por falhas nos mecanismos de abertura de emergência das portas.

Fabricantes admitem que clientes servem de teste

As próprias montadoras reconhecem o risco. Geely, GWM e Chery afirmaram que os prazos mais curtos transformam os clientes, na prática, em cobaias que testam a durabilidade e a segurança dos veículos em tempo real. “Os carros não são bens de consumo rápido”, disse Li Xueyong, vice-presidente da Chery, para quem alguns testes não podem ser acelerados porque os modelos precisam suportar climas, estradas e hábitos de condução distintos.

Desacelerar, no entanto, não é simples. Li Shufu, presidente da Geely, afirmou à televisão estatal chinesa que é difícil pedir a alguém para reduzir o ritmo quando todos disputam a liderança. Para as empresas menores, o custo é maior: mais testes físicos significam mais tempo e despesas justamente quando a rapidez é o que as mantém vivas. As regras alcançam marcas com operação no Brasil, como BYD, GWM e Chery, cujos modelos nascem desses ciclos.

A pressa não é exclusividade chinesa

Fabricantes europeus tentam encurtar seus próprios cronogramas, muitas vezes usando as estruturas que mantêm na China. A Volkswagen desenvolveu o SUV elétrico ID. UNYX 08 em 24 meses com apoio de inteligência artificial e realidade virtual na validação digital. O Grupo Renault levou 21 meses para criar o novo Twingo. A Toyota passou a desenvolver plataformas e vários modelos ao mesmo tempo, em vez de projetos sucessivos.

A inteligência artificial é a principal ferramenta desse encurtamento, ao substituir verificações manuais por simulação e validação digital antes dos protótipos. Para Yala Zhang, diretor-geral da consultoria Automotive Foresight, a tecnologia reduz erros de projeto, mas parâmetros básicos, como os testes de rodagem de 30 mil ou 50 mil quilômetros, não podem nem devem ser substituídos.

0 Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Comentários com palavrões e ofensas não serão publicados. Se identificar algo que viole os termos de uso, denuncie.
Avatar
Deixe um comentário