A ideia ‘genial’ que afundou 2 milhões de pneus no mar e poluiu o mar dos Estados Unidos para sempre
Nos anos 1970, a Flórida afundou mais de 2 milhões de pneus para criar recifes; eles viraram uma máquina de matar corais
Publicado em 13/07/2026 às 22h00
Parecia uma ideia brilhante nos anos 1970: por que não aproveitar milhões de pneus descartados para erguer recifes artificiais e estimular a vida marinha na costa da Flórida (EUA)? Batizado de Osborne Reef, o projeto tocado pela Broward Artificial Reef Incorporated (Barinc), na costa leste de Fort Lauderdale, virou em poucos anos um dos maiores desastres ecológicos já provocados por uma boa intenção — e a limpeza segue inconclusa mais de cinco décadas depois.
À frente da empreitada estava Ray McAllister, professor de engenharia oceânica da Florida Atlantic University e um dos fundadores da Barinc. Com aval do Corpo de Engenheiros do Exército dos EUA, o grupo mobilizou uma flotilha de voluntários com mais de 100 barcos particulares, escoltados pelo navio USS Thrush, para afundar mais de dois milhões de pneus reunidos em milhares de fardos amarrados. Até a Goodyear, fabricante dos pneus, embarcou na ideia.

A premissa era simples, mas a execução ignorou a dinâmica do oceano. Em vez de se tornarem um novo habitat para corais e peixes, os pneus viraram uma armadilha. Com o tempo, as amarrações de náilon e aço se romperam, e correntes marítimas e tempestades passaram a espalhar os pneus como projéteis pelo leito oceânico.
O impacto foi devastador. Longe de atrair vida, os pneus sufocaram os corais existentes e inibiram o crescimento de novas colônias. “Uma máquina de destruição de corais que não para de matar”, resumiu William Nuckols, um dos coordenadores da limpeza, em entrevista à CBS News. O que deveria auxiliar a natureza tornou-se entulho tóxico espalhado por vastas áreas.
Entre 2007 e 2009, mergulhadores da Marinha, do Exército e da Guarda Costeira dos EUA recuperaram cerca de 72 mil pneus. Desde então, segundo o Departamento de Proteção Ambiental da Flórida, mais de 586 mil unidades já foram retiradas, e um contrato de US$ 5 milhões foi firmado com a empresa Schlueter Vessel Management & Consulting para dar continuidade ao trabalho.

As projeções indicam que, até 2033, o total removido deve ficar pouco abaixo de 1 milhão de pneus — menos da metade do que foi despejado no mar. Ou seja, mais de 60 anos após o início do projeto, o pesadelo de borracha ainda estará longe do fim.
O episódio da Flórida não é um caso isolado: décadas atrás, a Virgínia afundou pneus para criar habitats semelhantes; uma tempestade categoria 3, em 1998, arrancou o material e o espalhou por praias da Carolina do Norte. Em Nova Jersey, cientistas chegaram a fundear cerca de mil pneus lastreados com concreto — e depois viram fragmentos reaparecerem nas areias do estado.
