Ford recria com IA o comercial que nunca fez do seu carro futurista de 1964

Protótipo de 5,77 m tinha sala de estar, compartimento isolado para as crianças e mapa de navegação três décadas antes do GPS

A perua Aurora, de 1964, era o sonho que a Ford tinha do carro do futuro (Foto: Shutterstock)
Por João Paulo Profeta
Publicado em 03/08/2026 às 10h00

A Ford usou inteligência artificial para produzir o comercial que nunca fez. A equipe de arquivo histórico da montadora criou um filme publicitário no estilo dos anos 1960 para o Aurora, conceito apresentado em 1964, e o divulgou no Dia da Inteligência Artificial, data comemorativa não oficial marcada em 16 de julho nos Estados Unidos.

O vídeo simula a campanha que a publicidade americana da época teria feito se tivesse acesso à tecnologia atual. Segundo a Ford, o material foi construído a partir de fotos de arquivo, documentos de projeto e os textos originais de divulgação do protótipo.

Uma sala de estar sobre rodas

1964 Ford Aurora
Foto: Ford | Divulgação

O Aurora estreou na Feira Mundial de Nova York de 1964 — o mesmo evento em que o Mustang foi apresentado — e nunca teve pretensão de chegar à linha de montagem. Era um “carro dos sonhos”, na definição da própria Ford, criado quando a marca havia caído para terceiro lugar na venda de peruas nos Estados Unidos, atrás de General Motors e Chrysler. Gene Bordinat, então vice-presidente de estilo, o descreveu como “um laboratório rolante de novas ideias em estilo e engenharia”. O folheto distribuído no evento listava 23 soluções inéditas.

Com 5,766 m de comprimento e 3,327 m de entre-eixos, o modelo era maior que o atual Expedition MAX, o maior SUV da Ford, que tem 5,631 m e distância entre eixos praticamente idêntica. O espaço foi dividido em três ambientes: o posto de comando, um salão central com sofá curvo em L, poltrona giratória, TV, rádio, gravador de som e um armário com geladeira e cristaleira, e o compartimento das crianças, na traseira.

Esse último ficava onde estaria o porta-malas, com banco voltado para trás e acesso por uma tampa bipartida cuja metade inferior servia de degrau atapetado. Uma divisória de vidro acionada eletricamente isolava o barulho, e o rádio AM/FM da área funcionava como interfone com os pais. O espaço tinha ainda termostato próprio e um compartimento para brinquedos.

O que virou realidade

Parte das soluções do Aurora chegou à produção décadas depois. O painel trazia um mapa que indicava a posição do carro em tempo real, antecipando em cerca de 30 anos a navegação embarcada de um Ford de série. Havia climatização por zonas, entretenimento para os passageiros de trás e um teto solar polarizado que passava de transparente a opaco no toque de um botão. No lugar do volante, uma barra assistida exigia meia volta de um extremo ao outro — solução que só reapareceu em modelos recentes da Tesla. Controle de velocidade de cruzeiro e direção de relação variável também emplacaram.

Outras ideias ficaram no protótipo. A dianteira reunia 12 faróis selados de 2,5 cm de diâmetro no lugar dos dois ou quatro convencionais, e frisos eletroluminescentes azuis percorriam as laterais servindo como luzes de posição. O carro chegou a ser cogitado pela produção de “2001: Uma Odisseia no Espaço”, que acabou desistindo. Em 1969, a Ford ainda faria um Aurora II, mais contido, sobre a base da perua LTD Country Squire.

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