BYD nega abusos, mas segunda morte em sua fábrica na Europa reacende escândalo trabalhista

Segundo acidente fatal na construção da fábrica de Szeged amplia a pressão sobre a BYD e expõe as contratadas, já multadas por irregularidades

Caso amplia investigações sobre segurança e denúncias de irregularidades trabalhistas (Foto: BYD | Divulgação)
Por Júlia Haddad
Publicado em 29/06/2026 às 06h00
Atualizado em 29/06/2026 às 08h03

Um segundo trabalhador morreu durante as obras da fábrica da BYD em Szeged, no sul da Hungria, o que intensifica o escrutínio sobre as condições de trabalho no maior projeto da montadora chinesa na Europa. O acidente ocorreu em 18 de junho, cerca de quatro meses após a primeira morte registrada no canteiro.

Segundo o Serviço Nacional de Ambulâncias da Hungria, equipes de resgate, incluindo um helicóptero, foram mobilizadas, mas a vítima — um cidadão chinês — não resistiu. De acordo com a polícia do condado de Csongrád-Csanád, o trabalhador teria sido atingido por um caminhão ao passar entre o veículo e uma carregadeira no momento em que o motorista retomava a marcha. As autoridades investigam as circunstâncias do acidente. A primeira fatalidade, em fevereiro, havia ocorrido durante uma operação de içamento com guindaste.

O caso vem à tona poucas semanas depois de a vice-presidente executiva da BYD, Stella Li, negar denúncias de abusos trabalhistas na obra e afirmar que a empresa recebe normalmente as inspeções das autoridades. Procurada pela CNBC, a montadora não comentou a nova morte; em nota à imprensa húngara, disse estar “profundamente chocada” e afirmou colaborar com as autoridades.

A apuração também envolve a AIM Construction Hungary, subsidiária da construtora ligada ao escândalo trabalhista da BYD no Brasil, em 2024, quando operários foram resgatados em condições análogas à escravidão em Camaçari (BA). A empresa foi multada em 34,5 milhões de florins (cerca de R$ 570 mil) por falhas em segurança ocupacional e advertida por outras irregularidades, como o registro tardio de funcionários. Outras duas prestadoras de serviço receberam sanções por infrações ligadas ao cadastro de trabalhadores e à supervisão das atividades.

No início do ano, a ONG China Labor Watch, sediada em Nova York, publicou um relatório com denúncias de trabalho forçado no canteiro, incluindo jornadas de sete dias por semana e retenção de salários. Segundo a entidade, houve avanços pontuais — como a redução da escala para seis dias —, mas trabalhadores ainda relatam vigilância das comunicações e punições a quem expõe as condições do local.

A unidade de Szeged será a primeira fábrica da BYD na Europa e é peça central da estratégia da empresa para escapar das tarifas impostas pela União Europeia aos carros elétricos chineses. A companhia enfrenta no bloco uma sobretaxa de 17% sobre os elétricos importados da China, além da tarifa-padrão de 10% para automóveis — barreira que a produção local pretende contornar. Segundo a montadora, a produção em escala está prevista para o terceiro trimestre de 2026.

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