Seu carro diz TUDO sobre você, mas para onde vão os dados armazenados nele?

Entenda como funcionam as questões de privacidade e armazenamento de dados no seu veículo, incluindo o acesso de montadoras e seguradoras

Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) pode ser acionada para questões de armazenamento e compartilhamento de dados (Foto: Shutterstock | AutoPapo)
Por Julia Vargas
Publicado em 21/06/2026 às 13h00
Atualizado em 22/06/2026 às 11h03

Ano após ano, os veículos novos inauguram novidades em termos de tecnologia que envolvem funções de conforto, segurança, entretenimento, navegação, detecção de problemas e outros. E com isso o seu veículo está cada vez mais personalizável para você, mas isso só é possível graças ao armazenamento de dados.

Você já se perguntou o quanto a montadora do seu automóvel sabe sobre a sua vida? Será que ela tem acesso aos lugares que você frequenta, hábitos da rotina, perfil de direção, lista de contatos, histórico de chamadas, entre outras informações?

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Como o carro conectado tem acesso às suas informações? Quais dados ele coleta?

De acordo com Flavio Sakai, Diretor de Eletrônica e Conectividade da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), o veículo conectado tem diferentes formas de acessar e armazenar dados do condutor. Essas informações podem ser coletadas por meio da conectividade do smartphone ou pelo registro das atividades do condutor dentro do automóvel.

Um modelo moderno pode acessar e registrar dados por meio de:

  • Bluetooth: está presente na maioria dos veículos conectados mais simples e dá acesso ao telefone/contatos, histórico de chamadas –  Esses dados são vinculados ao celular, mas ficam alocados em algum lugar da memória do sistema. Normalmente não são facilmente acessados.
  • Android Auto/Apple CarPlay – nesse caso há menor transferência de dados, pois é uma função de espelhamento do celular, mas como essa ferramenta tem a opção de operar por meio do Bluetooth, pode ser que os dados sejam armazenados. De forma geral é seguro, pois quando você sai do carro e você leva o celular embora, as informações não são mantidas no veículo.
  • Dados de navegação no GPS – as informações de navegação embarcada, como endereços, histórico de navegação, residência, trabalho, etc são armazenadas caso o condutor utilize o GPS nativo do modelo.
  • Outros dados de aplicativos da multimídia – armazenamento de dados como históricos de compra, locais visitados e serviços utilizados por aplicativos residentes no sistema do veículo e que operam sem conectividade (normalmente aqueles que guardam dados históricos não atualizados online).
  • Reconhecimento facial ou de voz – registro de rosto e voz que é utilizado para diferentes funções, especialmente voltadas para a segurança ficam gravados no automóvel.

O engenheiro Mithermayer Menabo, mentor em conectividade da SAE BRASIL, também destaca que carros com maior nível de conectividade ainda podem armazenar e utilizar:

  • Identificação do usuário/perfil (login no sistema multimídia);
  • Agenda de compromissos;
  • Preferências pessoais, como posição do banco, temperatura do ar-condicionado e estações de rádio/playlists preferidas;
  • Estilo de condução (agressividade, aceleração, frenagem);
  • Padrões de uso do veículo;
  • Dados operacionais e telemétricos, como velocidade, aceleração, frenagens bruscas, tempo de condução e paradas, consumo de combustível/energia, status mecânico (falhas, alertas, diagnósticos) e eventos de segurança (colisões, ADAS, desvios de faixa);
  • Dados ambientais e externos, como condições da via, tráfego e interações com infraestrutura.
Apple CarPlay (3)
Apple CarPlay é um sistema de espelhamento do seu Smartphone em que há um armazenamento de dados mais reduzido no veículo.

O especialista em conectividade pontua que a coleta de informações ocorre por meio de uma arquitetura distribuída que consiste nos seguintes componentes principais:

  • ECUs (Unidades de Controle Eletrônico), que controlam sistemas específicos (motor, freio, conforto, etc.)
  • TCU (Unidades de Controle Telemático), que são responsáveis por comunicação externa (4G/5G/IoT)
  • Sistema de Infotenimento: Interface com o usuário e integração com dispositivos móveis
  • Sensores embarcados, como GPS, acelerômetros, câmeras (ADAS/DSM), sensores do motor, etc.

Normalmente o fluxo de dados acontece da seguinte forma: um sensor captura os dados, que em sequência são processados pelas ECUs e TCUs e por fim armazenadas em uma nuvem da montadora ou outra empresa parceira/contratada.

Para onde vão os dados que o seu veículo coleta sobre você?

Os dados que são armazenados pelos veículos normalmente permanecem nele. No entanto, de acordo com Flavio Sakai, muitas informações também são disponibilizadas para a montadora, ou até mesmo para plataformas de telemetria, seguradoras (quando contratadas para tal) e apps mobile vinculados.

À medida que os carros têm mais conectividade, com 5G, por exemplo, os dados não costumam ser armazenados no automóvel, mas sim enviados para uma nuvem da fabricante. Esse compartilhamento possibilita várias funções, como manutenção preditiva, atualizações OTA (Over-the-Air), serviços conectados (rastreamento, travamento remoto) e programas de seguro baseado em uso (UBI – Usage Based Insurance), destaca Mithermayer Menabo.

Nesse caso do envio de informações para as fabricantes de automóveis, Flavio Sakai destaca dois cenários:

Veículos conectados com contrato de serviço entre montadora e proprietário

Nesse caso, no momento da compra a montadora já estabelece por contrato quais dados serão armazenados. São eles:

  • Informações pessoais do usuário, como CPF, dados de cobrança, endereços principais, entre outros.
  • Históricos de geolocalização, velocidades, perfil de direção, condições de manutenção do veículo, etc.
  • Histórico de chamadas ao call center, solicitação de suporte, concierge e outros serviços similares;

Ainda é possível que a montadora tenha acesso ao histórico de compras, refeições e  estacionamentos a depender do nível de serviço ou do modelo de negócios entre desenvolvedores de aplicativos, montadora e usuários.

Flavio Sakai destaca que o armazenamento de dados pelo carro conectado é uma versão reduzida e simplificada do registro de informações feito por smartphones. Quanto mais serviços são oferecidos via apps, mais dados são disponibilizados à montadora e aos desenvolvedores de aplicativos.

Além das montadoras, as seguradoras também podem fazer o armazenamento por meio de um rastreador instalado no veículo. Dessa forma, caso você contrate esse tipo de serviço , que normalmente oferece alto nível de segurança, concierge disponível para auxílio e outros benefícios, a empresa também terá acesso ao seu perfil de direção, por onde você andou, se esses locais são seguros, entre outras informações.

Veículos conectados sem contratos de serviço com a montadora

Quando não há um contrato firmado para prestação de serviço e processamento de dados, as informações transmitidas para a montadora são bem mais reduzidas:

  • Dados de falha e performance do veículo podem ser transmitidos e anonimizados, para melhoria de qualidade e do veículo
  • Nenhum dado do usuário é utilizado, apenas dados puramente do veículo

O que a LGPD diz sobre isso?

Como descrito até aqui, os veículos conectados podem armazenar os mais variados tipos de informações, inclusive perfis de comportamento, hábitos e rotinas. Por isso, as montadoras devem seguir a  Lei nº 13.709/2018Lei Geral de Proteção de Dados  (LGPD).

Isso porque, segundo Greycielle Amaral, advogada especialista na LGPD, uma vez que há tratamento de dados pessoais, as empresas são obrigadas a informar claramente quais dados são coletados, para que serão usados e como serão armazenados. O tratamento de dados acontece quando terceiros têm acesso às informações, o que torna a Lei de Proteção aplicável, com várias outras obrigações a serem observadas.

Qualquer compartilhamento de informações de pessoas naturais só pode ser realizado se enquadrado em uma das hipóteses legais de tratamento, que são dados pessoais comuns (art. 7º) e dados pessoais sensíveis (art. 11º). Por exemplo: ter acesso à rota de um proprietário e verificar que ele frequenta determinado endereço em frente a um templo religioso permitiria inferir sua religião, o que constitui um dado sensível.

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Vários tipos de dados pessoais comuns e sensíveis podem ser armazenados no sistema do veículo ou enviados para uma nuvem da montadora. (Foto: VW | Divulgação)

Logo, a advogada especialista afirma que os proprietários têm o direito de saber se seus dados pessoais são tratados, armazenados e compartilhados e deve consentir expressamente com isso. Caso as informações sejam armazenadas e compartilhadas sem autorização, os motoristas podem pedir a revogação e demais obrigações previstas na LGPD, como solicitar a exclusão, impedir o compartilhamento com terceiros e requerer correções.

Medidas de privacidade e segurança que você deve ter com seu carro conectado

Atualmente os dados pessoais são um dos bens mais valiosos para a sociedade e especialmente para empresas, que trabalham massivamente em cima dessas informações. Por isso, Greycielle Amaral destaca que é muito importante estar atento aos riscos reais de vazamentos ou acessos não autorizados, especialmente quando envolvem dados sensíveis, como localização, rotinas e preferências de uso.

Isso porque o uso indevido dos dados abre precedentes para fraudes, ações de criminosos com notificações falsas e golpes, para além dos incômodos com contatos publicitários indesejados. Dessa forma, todos os cidadãos devem tomar cuidado com seus dados e permanecer em alerta para empresas que não têm uma política de privacidade clara ou que não permitem que você acesse ou exclua seus dados.

Ao ter um carro conectado, antes de tudo, é preciso estar atento às condições de compra na hora de adquirir um veículo. É necessário avaliar se você quer assinar um contrato de prestação de serviços que fornecem várias comodidades, mas envolvem o uso dos seus dados, como Chevrolet OnStar, Toyota Serviços Conectados, myHonda Connect, myGWM, entre outros. Caso você não queira que a montadora armazene suas informações em uma nuvem, o ideal é dispensar o serviço.

O ideal também é sempre revisar permissões de telemetria e manter o software mais atual do veículo quando houver a possibilidade de fazer uma atualização (OTA), já que correções evitam vulnerabilidades cibernéticas.

Se o proprietário quiser ser muito cauteloso, ele pode priorizar o uso do Android Auto ou Apple CarPlay e não utilizar os aplicativos nativos do sistema, nem deixar contas logadas. Assim, os seus dados são espelhados no veículo e armazenados em uma escala bem mais reduzida. Logo, se o carro for roubado, por exemplo, a chance de alguém acessar suas informações é bem baixa.

Agora, se você estiver planejando vender o seu veículo ou estiver utilizando um carro alugado, não se esqueça de apagar todos os dados contidos nele. É preciso deletar o telefone do menu do multimídia e fazer um reset do sistema para a configuração de fábrica, que normalmente está disponível no menu. Isso vai apagar perfis de usuário, dados do sistema multimídia e dispositivos pareados.

Se houver também um aplicativo da montadora no seu celular vinculado ao veículo, não esqueça de apagar sua conta e integração do carro com smartphone. Isso é essencial para que o próximo proprietário não tenha acesso às suas informações pessoais e de rotinas, que podem inclusive representar algum risco para a sua segurança.

Além disso, caso o contrato de prestação de serviços da montadora, empresa de rastreamento ou seguradora tenha sido encerrado ou cancelado, exija que suas informações sejam deletadas. A advogada Greycielle Amaral ainda afirma que os proprietários podem solicitar a exclusão, impedir o compartilhamento com terceiros e requerer correções.

O exercício efetivo desses direitos depende das empresas manterem canais de atendimento ao titular funcionando adequadamente, o que nem sempre ocorre na prática. Quando esse canal se mostrar ineficaz ou inexistente, o titular pode recorrer à Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), órgão responsável por fiscalizar o cumprimento da LGPD e receber denúncias.

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