Fiat Tiatano chega ainda este ano para colocar italiana finalmente no segmento de picapes médias e desafiar reinado da Hilux
Um dos movimentos mais espetaculares da indústria automobilística aconteceu nos últimos meses e ele envolve duas montadoras gigantes (Stellantis e Toyota) e quatro marcas (Fiat, Peugeot, Toyota e Ram). Quem fez essa jogada de mestre no xadrez automotivo foi Antonio Filosa, CEO da Stellantis América do Sul.
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Na última semana, a Fiat revelou que sua picape do segmento D (médias) se chamará Titano. Ela será a ponta de lança da Stellantis para atacar um ícone da categoria, a Toyota Hilux. A questão que se coloca agora é se o Fiat Titano será capaz de romper a hegemonia da Toyota Hilux.
Para entender a história é preciso voltar aos antecedentes. Há anos a Toyota Hilux se tornou imbatível entre as picapes médias com carroceria sobre chassi. Somente a Chevrolet S10 conseguiu desbancá-la, mas a alegria da GM não durou muito tempo. A picape Hilux é estratégica para a Toyota, pois deixa muitos lucros nos cofres da montadora japonesa.
Antes da formação da Stellantis (união das antigas FCA e PSA), a Peugeot tinha decidido entrar no mercado de picapes médias com chassi utilizando um modelo criado na China. A Peugeot Landtrek estreou no México e seria fabricada no Uruguai para abastecer os mercados do Brasil e da Argentina.

Porém, alçado à condição de chefe da Stellantis na América do Sul, Antonio Filosa recebeu uma missão do CEO global, Carlos Tavares: viabilizar as marcas Peugeot e Citroën, sem perder as conquistas da Fiat e da Jeep.
De posse de um tabuleiro com várias marcas, Filosa deixou de olhar os interesses de cada fabricante e passou a olhar para o todo – e de que forma modelos e sinergias poderiam ser usados. Logo percebeu que lançar a Peugeot Landtrek seria um erro, pois a marca francesa não tinha expertise no segmento de picapes e precisava ser reposicionada como aspiracional e altamente tecnológica para se distanciar da Citroën.
Foi então que veio a decisão genial: a picape Landtrek seria vendida pela Fiat e não pela Peugeot. O primeiro jornalista a noticiar essa bomba foi nosso colega Freire Neto, em seu canal Motores e Ação. Muitos duvidaram.
Agora já temos a confirmação de que o que seria a Peugeot Landtrek (cheio de desconfiança por parte do público e da mídia) será a Fiat Titano. Filosa e sua equipe perceberam que, dentro da marca Fiat – que já é líder das categorias B e C com as imbatíveis Strada e Toro –, a picape Landtrek, renomeada Titano, completaria a gama de forma natural.
O mesmo produtor rural que já compra as picapes Strada e Toro poderá também comprar a Fiat Titano. Ou indicá-la para um colega. E isso dentro de uma marca líder de mercado, que vive um momento espetacular, e com uma rede treinada para atender esse segmento.
Mas não é só isso. Junto com a troca da Peugeot Landtrek pelo Fiat Titano, a Stellantis fez outro movimento ousado e brilhante ao desenvolver uma inédita picape nacional para a marca Ram, baseada na Fiat Toro. Com maior porte do que a Toro, porém com o vitorioso conceito de carroceria monobloco (presente também na Ford Maverick, na Renault Oroch e no Chevrolet Montana), a picape da Ram será outra pedra no sapato da imbatível Hilux.

Ainda é cedo para projetar se a Fiat Titano vai abalar as estruturas da Toyota Hilux. Mas outros modelos, como Volkswagen Amarok, Nissan Frontier e Mitsubishi L200, podem perder vendas. Será mais difícil roubar vendas da Chevrolet S10 e da Ford Ranger (que virá totalmente renovada este ano).
Até onde sabemos, a Fiat Titano terá muito conteúdo e recursos tecnológicos, como câmera 360º, tela multimídia de 10 polegadas e pacote de segurança ADAS, além de motor 2.2 turbo com 200 cv de potência. Se isso se confirmar, será forte, muito forte, e a jogada de mestre será coroada com boas vendas.
Mesmo que a novata Titano não derrube a poderosa Hilux, a estratégia parece ser muito boa, afinal a Fiat não estará sozinha nessa guerra: terá ao seu lado a Ram com sua picape monobloco ainda sem nome revelado (falam em Rampage e Ram 1200).

Mas, e quanto à Peugeot? Ela não teria que ser recuperada? Sim – e está sendo. Às vezes, como diz o ditado chinês, é melhor dar um passo para trás para depois dar dois à frente do que um à frente e dois para trás. Foi o que Filosa fez: um movimento pontual de recuo da Peugeot, que queimaria o potencial da nova picape média, para depois atacar com outros produtos.
Num primeiro momento, Peugeot e Citroën ganharam gás com séries especiais, novas versões, um novo modelo e algumas estratégias comerciais da Fiat. Mas o desafio da Stellantis América do Sul com essas marcas é muito maior. E não passa, seguramente, por uma ousada aposta em uma picape de carroceria sobre chassi.
Ambas cobram muito pelo pouco que oferecem. Nicho de camionetes está com valor fora da realidade brasileira. CNPJ faz a festa, mas CPF se lasca.