Há um ano, 220 chineses foram encontrados sob escravidão na fábrica da BYD na Bahia. Desde então, montadora seguiu acumulando conflitos com os trabalhadores
A doutrina jurídica adotada no Brasil entende que os vários direitos humanos devem coexistir entre si e entre diferentes pessoas, sem maior importância a um ou outro. Isso, entretanto, tem uma exceção: a proibição do trabalho escravo, que não tem ‘desculpa’ em nenhum caso.
Isso porque, no entendimento dos juristas, o trabalho forçado é uma degradação intolerável à condição humana sob qualquer hipótese. Essa degradação, porém, foi encontrada na fábrica da BYD em Camaçari (BA), há um ano, em 23 de dezembro de 2024.
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Nesse dia, uma força-tarefa do Ministério Público do Trabalho (MPT) e do Ministério do Trabalho (MTE) e Emprego flagrou uma situação chocante: 220 trabalhadores chineses vivendo em condições precárias, dentro da planta da montadora.
Coube à BYD o maior escândalo de escravidão do Brasil no ano. “Segundo a equipe de fiscalização, a constatação se deu com base na identificação de três elementos principais: trabalho forçado, condições degradantes e jornada exaustiva”, afirmou o MTE.
As constatações das autoridades incluíam:

Também foram encontrados aspectos relativos à “servidão por dívida”. Nessa modalidade, eram cobrados valores altos por itens básicos de subsistência, de forma que os escravos da BYD precisavam trabalhar para pagar os próprios patrões.
Tudo isso com passaportes retidos para evitar fugas do “cativeiro” — que eram vigiados, segundo o MPT, por policiais militares que, ilegalmente, atuavam como seguranças particulares.
Segundo fontes ouvidas sob anonimato por AutoPapo, a dimensão do escândalo gerou até repercussões diplomáticas.
Isso porque a empreitada chinesa na Bahia sempre foi uma das principais bandeiras da relação pacífica entre Brasil e China.
O constatado em Camaçari, entretanto, foi de encontro a uma das principais bandeiras do Partido dos Trabalhadores, que se viu em saia justa frente aos parceiros asiáticos.
Todavia, nada disso impediu que conflitos trabalhistas seguissem ocorrendo ali.

No fim, a BYD tentou jogar a culpa para a empresa terceirizada, que teve o contrato rescindido. Os auditores-fiscais do trabalho, entretanto, afirmaram que isso era apenas uma desculpa.
Segundo os fiscais, “ficou caracterizada a existência de relação de emprego” com a montadora, que não poderia jogar a culpa para terceiros. Além disso, houve indícios de fraude junto às autoridades de migração do Brasil e “fortes evidências” de tráfico internacional de pessoas, segundo o Ministério Público.
O MTE lavrou mais de 60 autos de infração em nome da BYD, que teve parte da fábrica baiana interditada. O MPT também ajuizou uma ação civil pública no valor de R$ 257 milhões. Por fim, a BYD assinou um Termo de Ajustamento de Conduta para retomar as operações no local.
“A escravidão constitui uma violação tão grave aos direitos humanos que sua vedação é considerada imperativa. (…) O trabalho escravo, portanto, fere um dos direitos fundamentais mais basilares previstos na Constituição: a Dignidade da Pessoa Humana”, destacou o MPT, na ação civil contra a BYD.
Procurada, a BYD não se manifestou até a publicação desta matéria.